1 de janeiro de 2015

A cor da lista


lista
Vasculhando minha gaveta enquanto procurava uma caneta bic (que segundo li em um artigo num site sobre conspirações, são na verdade sondas alienígenas, o que explicaria o fato delas misteriosamente desaparecerem e reaparecerem em lugares diferentes) encontrei minha lista de resoluções do ano novo. Senti uma vaga sensação de angustia ao notar que já era novembro e nenhum item havia sido marcado com um "feito". Na tentativa de salvar o que me sobrava de honra, tomei uma decisão: se eu concluísse ao menos uma tarefa nem tudo estaria perdido. Corri o dedo pela lista procurando algo realizável.
"Deletar minha conta do Facebook" - Hum, talvez ano que vem.
"Viajar de balão" - Onde eu estava com a cabeça?
"Criar galinhas" - Mas hein?
Finalmente me decidi por algo:
"Pintar o quarto".
Munido de boa vontade mas nenhuma experiência, rumei com passos fortes em direção a loja de materiais de construção em busca de uma nova coloração para meu quarto. No caminho eu pensei que cores claras seriam a melhor opção, por isso quando cheguei sem folego ao balcão falei decididamente:
- Tinta branca, por favor.
Sem levantar os olhos do teclado onde digitava o atendente perguntou:
- Qual delas?
- “Qual delas?” – repeti sem entender.
O atendente olhou pra mim por cima das lentes dos óculos como se eu fosse inacreditavelmente burro e, com uma longo suspiro me entregou um catálogo que tirou de debaixo do balcão. O catálogo se desdobrava em três, mostrando uma infinita variedade de brancos com nomes que para mim, mais pareciam ter saído do menu de algum restaurante: “Iogurte natural”, “Nata fresca”, “Merengue”, "Água com gás”, “Açúcar refinado”, não lembrava de nenhum desses nomes gastronômicos no meu conjunto de guache no primário. Por fim me decidi por algo mais light: “Branco gelo”.
- Vou precisar também de um pincel – falei.
- Qual tipo? – o atendente retrucou.
- De pintura? – pensei em voz alta.
O atendente revirou os olhos.
Já em casa com o material, me empenhei em forrar o chão, e para isso utilizei uma vasta coleção da revista CARAS que estava guardada num dos cantos da casa. Descobri que se não arrancasse a página e colocasse imediatamente no chão, algum artigo iria chamar minha atenção e eu acabaria perdendo o foco, lendo sobre os VIPS se divertindo no castelo com a foto de alguma atriz atracada a uma coluna de mármore, olhando para o infinito e vestindo um robe de cetim.
As instruções da lata de tinta diziam "Diluir em 20% de água" - Ora, nada de modestia! eu disse, jogando quase um galão de água e misturando tudo. Na parte da frente da lata a ilustração mostrava um pintorzinho segurando um rolo de pintura e dizendo ‘É mais fácil do que você imagina!’ E abaixo dele havia seu nome: ‘Zezinho’. Comecei a pintar com o mesmo ânimo que teria se estivesse tentando fazer a estátua do Cristo Redentor rir e pular. Mas se ‘Zezinho’ sendo apenas uma ilustração conseguia pintar, também podia eu. Acontece que quanto mais eu me esforçava, mais me sentia Cecilia Jiménez, aquela idosa que tentou restaurar a pintura de Jesus numa igreja e acabou arruinando tudo. Assim, horas depois, na oitava demão de tinta eu já havia estabelecido duas verdades:
- ‘Branco-gelo’ não é branco e tampouco tem cor de gelo.
- Siga sempre as instruções da lata.
Numa das páginas de revista que forravam o chão, Júlia Roberts em seu melhor vestido do Oscar, olhava desaprovando o resultado da minha pintura. – É que sou inciante – apressei-me em explicar. Na página ao lado havia a citação “Nunca desista de seus objetivos”.
Mais tarde, naquele dia, me sentindo tão fracassado quanto Van Gogh após cortar a orelha, decidi parar e aceitar minha incapacidade em materia de pintura de interiores. Deitei minha carcaça suja de tinta ali mesmo no chão e dormi. Contraditoriamente verdadeiro milagre operou-se durante a noite, porque na manhã seguinte a tinta havia secado e tudo estava perfeito. OK, não estava perfeito, mas aceitável. Dessa vez Júlia parecia sorrir alegremente para minha criação.
Com um sorriso no rosto, peguei a lista que estava no meu bolso e com uma "sonda alienígena" marquei um "feito".
23 de maio de 2014

A ciência da preguiça



A sensação de ficar deitado e fazer nada pode ser boa - as vezes boa até demais. Seja para evitar trabalho ou escapar de atividades físicas, todos nós nos sentimos assim de vez em quando. Mas porque algumas pessoas são mais preguiçosas do que outras? Existe algum gene molenga que causa comportamento preguiçoso?

A evolução modelou nossos cérebros e corpos a responder de maneira positiva a impulsos como comida, sexo, e acredite, até exercícios. A sensação de prazer que sentimos vem na sua maior parte do sistema dopamínico em nosso cérebro, que envia essas mensagens através do corpo com a função de ajudar manter a sobrevivência da nossa espécie.

Para alguns a sensação causada pelo exercício pode ser tão viciante quanto comida e sexo, mas enquanto a maioria compartilha o desejo por comida e sexo, alguns sentem dificuldades em querer praticar atividades físicas, embora seja uma parte essencial da biologia humana.

Estudando ratos, cientistas da Universidade da Carolina do Norte encontraram uma interessante conexão. Depois de separa-los em dois grupos: aqueles que escolheram correr constantemente na roda e aqueles que escolheram não correr muito. Houve uma clara diferença nas suas crias, dez gerações depois os ratos mais ativos corriam 75% mais vezes do que os ratos do grupo sedentário e dezesseis gerações depois eles corriam 11,5km contra os 6,5km do outro grupo. Ao que parece, a motivação para atividade física é genética.

Todos nós herdamos genes dos nossos pais que são usados na formação de nossos cérebros, e esses genes podem criar, literalmente, predisposição ao desejo por atividades. De fato, o cérebro dos ratos que corriam tinham maiores sistema dopaminico e regiões que assimilavam motivação e recompensa. Eles precisavam de atividade, do contrario, seus cérebros iriam reagir da mesma forma que um viciado em cocaína ou nicotina em abstinência. Eles eram geneticamente viciados em correr.

Nós também herdamos genes responsáveis por outros traços como impulsividade, procrastinação, comportamento profissional e preguiça. Acontece que este ultimo tem ligação com o gene molenga, ou melhor, uma mutação no gene normal que regula o nível de atividade física. Esse gene é responsável por um tipo de  receptor de dopamina, sem ele, você vai preferir mais ficar deitado e fazer menos do que aqueles que tem esse gene funcionando normalmente.

A verdade é que o desejo por atividades pode não estar totalmente em seu controle, mas muitos fatores externos também contribuem para isso. O que não significa que você esteja condenado a uma vida de preguiça, se você acha que o gene molenga anda rondando seu DNA.

28 de abril de 2014

Aromatizado e colorido artificialmente


Eu não posso ser o único que acha estranho comer algo que poderia ser, ao que tudo indica, isopor com cheiro, cor e sabor artificial. Ok. Não temos mais tempo de cultivar a própria horta  e suponho que a maioria não se imagina correndo atrás de uma galinha de um lado para o outro do quintal como faziam nossos avós quando iam preparar o almoço. Mas será que algum de nós já parou para pensar o que é esse tal “corante Caramelo IV” dos refrigerantes ou o “edulcorante E 951” dos iogurtes? Não sou nenhum Erin Brockovich, mas quando o composto de uma comida se transforma numa sigla numérica, algo está errado.

“Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”

Sim, todo nós sabemos que comida industrializada não tem como lema “saúde em primeiro lugar”, mas isso vai mudar nosso hábitos alimentícios? Dificilmente. E entendo que o fato de estar comendo lasanha industrializada enquanto escrevo esse artigo não ajuda muito a dar força ao meu argumento.

Mas quando foi a ultima vez que você ouviu alguém exclamar: “Hum! Que brócolis delicioso!” A grande maioria prefere é um hambúrguer do McDonnalds mesmo. Em se falando do hambúrguer do MCDonalds: Em 2012 o chef Jamie Oliver conseguiu provar que a carne usada para criar o recheio deles é a mesma usada para fabricar alimento para cães, e que a rede de lanchonetes utilizava hidróxido de amônia na tentativa de reduzir a quantidade de micróbios dela, num metodo que Oliver batizou de “processo da gosma rosa”.

Tentando convencer um grupo de crianças sobre o tipo de comida que eles estavam ingerindo nas redes fast-food, Oliver demonstrou o processo de fabricação a elas, jogando a carcaça do frango junto com restos de pele e vísceras no triturador, enquanto as crianças se contorciam de nojo, depois adiconou aromatizantes e estabilizadores, fez um bolinho, passou na farinha de rosca e fritou. “Quem ainda tem coragem de comer isso?” – Ele perguntou desafiadoramente. Todas as crianças levantaram a mão. Se sentindo derrotado ele quis saber “Mas, porquê?” “Porque estamos com fome” – Foi a resposta em uníssono.

Meu amigo Diogo, cuja ultima vez que comeu uma fruta foi provavelmente ainda nos anos 90, disse ter conseguido abreviar todo o conceito de alimentação saudável numa única frase: “Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”.

Quando Friedrich Nietzsche disse que “O que não nos mata, nos fortalece”, ele não contava com o fator alimentício. E agora se  me dão licença, a água do miojo já está fervendo, e para desencargo de consciência eu utilizo o mesma desculpa das crianças e finjo que não estou comendo veneno gostoso.

E reformulando um antigo ditado: O que os olhos não veem… as artérias sentem.

23 de abril de 2014

Compressor: a máquina infernal


No livro “The egg and I” (O ovo e eu) de 1945, Betty MacDonald descreve suas hilárias aventuras como uma esposa recém-casada que se muda da cidade para o interior para cuidar de uma granja com o marido Bob.

Francamente, eu tenho horror a tudo quanto é enlatado em casa. Em toda folguinha que arranjava, vivia lendo sobre botulismo. Bob, por outro lado, adorava isso de corpo e alma. Quando ele enlatava na dispensa – que era maior que qualquer cozinha – demonstrava a mais pura alegria ao ver as fileiras e mais fileiras de potes reluzentes. As mulheres da região eram julgadas não pelo que vestiam, mas pelo que faziam na dispensa. Os maridos sem acanhamento nenhum, escancaravam as portas da dispensa e desafiavam a esposa a enlatar ainda mais coisas de tudo que poderia existir.

Eu advertia Bob, quando comecei a lidar com potes, tampas, açúcar e o compressor, que as amoras do ano passado tinham gosto de lã. Mas ele foi inflexível. Portanto, mãos a obra! Toca a enlatar durante o verão todo. Cada vez que eu ia ao jardim, voltava vergada ao peso de cargas insuportáveis. Nunca me vira face a face com tanta produtividade. Pés de ervilhas cheias de vagens enormes, os pés de feijão vergando com com o peso de feijões gigantescos, cenouras com os ombros nus fora da terra, para me mostrar que já estavam prontas, aboboras que nem a uma hora atrás ainda estavam em flor, e eu também enchia um balde de cerejas que apanhava de um galho mais baixo da velha cerejeira que sombreava a cozinha.

Birdie Hicks bateu todos os recordes. Evidentemente ela passava as noites de pé, enlatando, durante o verão e o começo do outono, pois as sete e quinze ela aparecia lá em casa, elegante e penteada, e me dizia (enquanto seu olhar penetrante ia notando que eu ainda não havia lavado a louça do café, não tinha arrumado a casa, não tinha banhado a criança  e não tinha esfregado o chão antes de começar a enlatar) que tinha justamente terminado de enlatar trinta a cinco quilos de milho, oitenta e dois de vagem, e um pote de cinco galões de conserva de coentro. Ela partia os pêssegos em duas metades perfeitas, e empilhava nos potes, como nas figuras dos livros.

Lá pelo fim do verão, as galinhas estavam botando e Bob separando os bandos. Sem que eu lhe desse o menor apoio, ele decidiu que, já que o preço dos frangos estavam baixos, eu deveria enlata-los também. Parecia ao meu pobre espirito conturbado que Bob andava milhas e milhas só para descobrir mais coisas que eu pudesse enlatar; que ele reprovara energeticamente um minuto sequer do meu tempo que não fosse empregado nesse serviço; que volta e meia ele entrava na cozinha, cambaleando sob o peso de um cesto cheio de alguma coisa para eu enlatar. Minha primeira reação foi homicídio, depois suicídio, e por fim chorosa resignação.

Quando ele trouxe as três primeiras galinhas escolhidas, eu acremente comentei que “não era só o compresso que estava trabalhando sobre pressão”. Mas não obtive nenhuma resposta. Mais tarde por causa do meu comentário, ele disse que o desastre aconteceu por minha culpa . Juro que não foi. Mas senti que Deus tivera piedade de mim, pois o compressor foi pelos ares. Foi o dia mais feliz da minha vida, embora eu pudesse também ter morrido. Um pino foi atirado pela porta da cozinha, as paredes ficaram salpicadas de asas e miúdos de galinha, o chão nadava em molho de carne, e a tampa de alumínio partiu-se em duas, batendo no forro com tal força, que deixou duas marcas em forma de meia lua sobre o fogão. Fiquei delirando de alegria. Não sabia como tinha acontecido aquilo, mas nem me importava. Eu estava livre.

Depois do almoço, quando sai cantarolando pela casa, catando pedaços de galinha das molduras dos quadros e do espelho do quarto, Bob me contemplou meditativamente. Em seguida pegou o catalogo Sears Roebuck, e começou a procurar um tipo de compressor maior, mais rápido e mais forte.

Moradora por muitos anos do estado de Washington, Betty MacDonald (1908-1958) escreveu quatro livros autobiográficos humorísticos e vários livros infantis. Seu livro mais conhecido O ovo e eu, foi best-seller nos Estados Unidos em 1945.

14 de abril de 2014

Final feliz


O website do jornal online dizia numa das manchetes "Marido morre afogado quando jogava cinzas da mulher no mar". Mais abaixo um dos leitores comentou "E viveram felizes para sempre"

 

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