Vasculhando minha gaveta enquanto procurava uma caneta bic (que segundo li em um artigo num site sobre conspirações, são na verdade sondas alienígenas, o que explicaria o fato delas misteriosamente desaparecerem e reaparecerem em lugares diferentes) encontrei minha lista de resoluções do ano novo. Senti uma vaga sensação de angustia ao notar que já era novembro e nenhum item havia sido marcado com um "feito". Na tentativa de salvar o que me sobrava de honra, tomei uma decisão: se eu concluísse ao menos uma tarefa nem tudo estaria perdido. Corri o dedo pela lista procurando algo realizável.
"Deletar minha conta do Facebook" - Hum, talvez ano que vem.
"Viajar de balão" - Onde eu estava com a cabeça?
"Criar galinhas" - Mas hein?
Finalmente me decidi por algo:
"Pintar o quarto".
Munido de boa vontade mas nenhuma experiência, rumei com passos fortes em direção a loja de materiais de construção em busca de uma nova coloração para meu quarto. No caminho eu pensei que cores claras seriam a melhor opção, por isso quando cheguei sem folego ao balcão falei decididamente:
- Tinta branca, por favor.
Sem levantar os olhos do teclado onde digitava o atendente perguntou:
- Qual delas?
- “Qual delas?” – repeti sem entender.
O atendente olhou pra mim por cima das lentes dos óculos como se eu fosse inacreditavelmente burro e, com uma longo suspiro me entregou um catálogo que tirou de debaixo do balcão. O catálogo se desdobrava em três, mostrando uma infinita variedade de brancos com nomes que para mim, mais pareciam ter saído do menu de algum restaurante: “Iogurte natural”, “Nata fresca”, “Merengue”, "Água com gás”, “Açúcar refinado”, não lembrava de nenhum desses nomes gastronômicos no meu conjunto de guache no primário. Por fim me decidi por algo mais light: “Branco gelo”.
- Vou precisar também de um pincel – falei.
- Qual tipo? – o atendente retrucou.
- De pintura? – pensei em voz alta.
O atendente revirou os olhos.
Já em casa com o material, me empenhei em forrar o chão, e para isso utilizei uma vasta coleção da revista CARAS que estava guardada num dos cantos da casa. Descobri que se não arrancasse a página e colocasse imediatamente no chão, algum artigo iria chamar minha atenção e eu acabaria perdendo o foco, lendo sobre os VIPS se divertindo no castelo com a foto de alguma atriz atracada a uma coluna de mármore, olhando para o infinito e vestindo um robe de cetim.
As instruções da lata de tinta diziam "Diluir em 20% de água" - Ora, nada de modestia! eu disse, jogando quase um galão de água e misturando tudo. Na parte da frente da lata a ilustração mostrava um pintorzinho segurando um rolo de pintura e dizendo ‘É mais fácil do que você imagina!’ E abaixo dele havia seu nome: ‘Zezinho’. Comecei a pintar com o mesmo ânimo que teria se estivesse tentando fazer a estátua do Cristo Redentor rir e pular. Mas se ‘Zezinho’ sendo apenas uma ilustração conseguia pintar, também podia eu. Acontece que quanto mais eu me esforçava, mais me sentia Cecilia Jiménez, aquela idosa que tentou restaurar a pintura de Jesus numa igreja e acabou arruinando tudo. Assim, horas depois, na oitava demão de tinta eu já havia estabelecido duas verdades:
- ‘Branco-gelo’ não é branco e tampouco tem cor de gelo.
- Siga sempre as instruções da lata.
Numa das páginas de revista que forravam o chão, Júlia Roberts em seu melhor vestido do Oscar, olhava desaprovando o resultado da minha pintura. – É que sou inciante – apressei-me em explicar. Na página ao lado havia a citação “Nunca desista de seus objetivos”.
Mais tarde, naquele dia, me sentindo tão fracassado quanto Van Gogh após cortar a orelha, decidi parar e aceitar minha incapacidade em materia de pintura de interiores. Deitei minha carcaça suja de tinta ali mesmo no chão e dormi. Contraditoriamente verdadeiro milagre operou-se durante a noite, porque na manhã seguinte a tinta havia secado e tudo estava perfeito. OK, não estava perfeito, mas aceitável. Dessa vez Júlia parecia sorrir alegremente para minha criação.
Com um sorriso no rosto, peguei a lista que estava no meu bolso e com uma "sonda alienígena" marquei um "feito". Tags Ano Novo, Humor, Pintura



O website do jornal online dizia numa das manchetes "Marido morre afogado quando jogava cinzas da mulher no mar". Mais abaixo um dos leitores comentou "E viveram felizes para sempre"