20 de dezembro de 2013

A voz interior


Quando eu atendi meu telefone pessoal como se estivesse atendendo o telefone do trabalho com um “Hospital Municipal, bom dia”, eu percebi que essa era a forma natural do meu corpo dizer “ok, você precisa de férias”.

Logo eu compreendi que o termo ‘voz interior’ é bem mais literal do que eu pensava.

Como quando eu trabalhava como recepcionista no período de alta estação. O relógio já marcava 3:00 da tarde eu ainda não tinha tido oportunidade de almoçar com o corre-corre de check in dos turistas. Não demorou muito até meu corpo dar inicio a sua comunicação, emitindo um longo ronco que soou como uma baleia morrendo, para espanto da hospede que eu atendia no momento, que rapidamente me mostrou uma barra de cereal que tirou de dentro da bolsa e, com uma piscada, empurrou na minha direção sobre o balcão.

Há reações mais intensas.

O que dizer dos desejos mais insanos das gravidas? Outro dia meu amigo me falou espantado do caso de uma gestante que após passar o batom, ficou fissurada pelo gosto, para espanto do marido que entrando no quarto, a flagrou lambendo o  cosmético feito um pirulito.

E pra quem ainda tem dúvidas da capacidade desse alter ego, deixo o seguinte caso:

As 2:00 da madrugada, Rebekah Armstrong acordou com sons que vinham do jardim. Quando olhou pela janela encontrou o marido Ian calmamente aparando a grama... nu. Obviamente a voz interior de Ian se aproveitou de um episodio de sonambulismo para executar o que a tanto tempo vinha dizendo: ‘Corte a grama!’. O jardineiro da madrugada voltou à cama mais tarde e não acreditou em Rebekah quando, no dia seguinte, ela disse o que ele andou fazendo. Fazer o quê?

O coração quer o que o coração quer.

30 de outubro de 2013

A sabedoria dos que morrem


Uma enfermeira australiana revelou o que aqueles que estão vivendo seus últimos dias mais se arrependem na vida que levaram.

Não houve menção de mais sexo ou bungee jump. A enfermeira que tem presenciado pessoas em estado terminal, relata os arrependimentos mais comuns que temos ao final da vida, e no topo da lista, em particular para os homens está ‘Eu desejaria não ter trabalhado tanto’.

Bronnie Ware é uma enfermeira australiana que passou vários anos tratando de pacientes em suas ultimas 12 semanas de vida, ela registrou as experiências em seu blog, que chamou atenção ao ponto de lhe fazer escrever um livro: Antes de partir.

Ware fala sobre a claridade fenomenal de visão que as pessoas ganham no final de suas vidas, e de como podemos aprender com elas. “Quando perguntei sobre algum  arrependimento ou algumas coisa que eles gostariam de ter feito de maneira diferente, alguns temas sempre se repetiam” – disse.

Esses são os cinco maiores arrependimentos presenciados por ela.

1. Eu desejaria ter tido coragem de viver uma vida verdadeira, não a vida que os outros esperavam de mim.

“Este é o arrependimento mais comum de todos. Quando as pessoas percebem que suas vidas está quase acabando e fazem uma retrospectiva, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não alcançaram nem metade de suas aspirações e tiveram que morrer sabendo que isso foi decorrência das escolhas que elas fizeram, ou não fizeram. Saúde mascara a compreensão da vida, até ela ir embora”

2. Eu desejaria não ter trabalhado tanto.

“Esse veio de todo paciente do gênero masculino que cuidei. Eles perderam a infância de seus filhos e a comunhão de suas companheiras. Mulheres também mencionaram esse arrependimento, a maioria de uma geração mais antiga em que eram mães solteiras. Todos os homens lamentaram profundamente ter gasto tanto tempo de suas vidas na carreira profissional.”

3. Eu desejaria ter expressado meus sentimentos.

“Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos de maneira a manter a paz com os outros. Como resultado disso, elas se acomodaram a uma existência medíocre e nunca se tornaram o que eram realmente capazes de se tornar. Muitos desenvolveram doenças relacionadas a amargura e o ressentimento que carregavam como consequencia.”

4. Eu desejaria ter mantido contato com meus amigos.

“Algumas vezes os pacientes não percebem verdadeiramente os reais benefícios dos velhos amigos até que estejam a semanas de morrer, e nem sempre é possível localiza-los. Muitos se tornaram tão concentrados em suas próprias vidas que deixaram amizades preciosas se desfazerem com o passar dos anos. Houveram muitos profundos arrependimentos em não dedicar a amizades o tempo e esforços merecidos. Todos sentem falta de seus amigos quando estão morrendo.”

5. Eu desejaria ter me permitido ser mais feliz.

“Esta é supreendentemente comum. Muitos não compreendem até que estejam morrendo que felicidade é uma escolha. Eles se mantiveram em rotinas e hábitos. A chamada ‘zona de conforto’ sobrepuseram suas emoções e também suas vidas físicas. Medo de mudar os levam a fingir para os outros e para si mesmos que estão contentes, quando na verdade no interior eles desejam alegria novamente.”

11 de agosto de 2013

Um problema de lentes


Melhor assim ou assim? - Me indagou o oftalmologista, trocando as lentes do aparelho na frente dos meus olhos enquanto eu olhava para um cartaz que pelos meus cálculos, deveria estar a cinco quilômetros de distancia pregado na parede do consultório.

- Não consigo ver diferença entre os dois - falei.

- Bom! Você vai ter que decidir! - retrucou o oftalmologista meio sem paciência.

"E meus pais pagando R$ 25,00 (não era tão barato, estamos em 1994) para eu ouvir isso!" - pensei.

É sempre assim que começa a trajetória daqueles que não são muito agraciados com uma boa visão. No consultório do oftalmologista naquele dia, aos sete anos de idade, me ocorreu que talvez usar óculos não era a coisa mais legal de todas.

Eu estava certo.

Com o passar dos anos descobri que os óculos são um tipo de punição subliminar, do tipo que deixa a pessoa com aspecto de intelectual, mas somente quem usa pode realmente sentir na pele, digo, nos olhos, essa tortura. Mesmo tarefas simples do dia a dia requerem habilidades profissionais, isso porque os óculos tem peculiaridades únicas.

Começando pelo fato (injusto) que você não consegue encontrar seus óculos porque não consegue enxerga-los. Circulo vicioso.

"Porque ainda não inventaram óculos com um acessório igual aqueles limpadores de para-brisa dos carros?"

Tomar café, sopa, chá ou qualquer outra bebida quente nos dá a sensação de estar dentro de um nevoeiro, porque as lentes embaçam.

Nada nos proporciona um aspecto mais estranho do que ir ao cinema assistir um filme em 3D, usando um par de óculos em cima de outro, acabamos chamando mais atenção do que os efeitos tridimensionais do filme.

Ir a piscina ou praia é um dilema. Ou se escolhe divertir-se na água ou se escolhe enxergar alguma coisa. Andar em dias de chuva me faz pensar "porque ainda não inventaram óculos com um acessório igual aqueles limpadores de para-brisa dos carros"?

Tentar beijar alguém usando óculos é uma tarefa arriscada. Um movimento errado e alguém pode ficar cego.

Não se deve nunca esquecer de tira-los antes de dormir, as chances de você acordar com o que parece ser uma escultura pós moderna de arame e vidro toda retorcida no seu rosto são enormes.

Jamais se deve segurar os óculos pelas lentes, isso desperta a fúria mortal de qualquer quatro olhos, a marca de uma digital acompanhando o olhar por todos os cantos nunca é uma visão agradável.

Anos depois, cansado daquilo, atilei longe meus óculos, mas cinco minutos depois eu já tinha tropeçado no gato e colocado sal no meu café. Voltei derrotado tateando o chão em busca deles novamente.

É como dizem. Ruim com eles, pior sem eles.

22 de junho de 2013

A Rede (Anti) Social


A luz de manutenção do meu carro acendeu - Disse meu chefe  irrompendo na minha sala numa tarde de sexta-feira enquanto eu tentava posicionar meu monitor de maneira que só eu pudesse ver um desses videos de gatos fazendo coisas engraçadas no youtube.

- "Como é?" - Exclamei com um rápido movimento do mouse e na confusão, em vez de fechar o navegador,  apertei o play. Reações rápidas não são o meu forte.

- Tenho que lembrar de ir na oficina - Continuou ele.

"Miau" - fez o gato do vídeo.

Tentando me recompor, perguntei:  - A quanto tempo está assim?

- Quase quatro meses. - Disse ele - É incrível! Passo todo esse tempo com a luz de manutenção do carro piscando, mas não consigo dormir com o ícone de notificação do Facebook mostrando uma atualização. (miau novamente).

- Estamos muito apegados a essas redes sociais - concluiu ele.

- É - Respondi. "Miau" - respondeu o gato.

Meu chefe revirou os olhos.

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Mais tarde naquele dia quando os níveis de açúcar no meu sangue estavam perigosamente baixos e minha imaginação estava perigosamente alta, eu comecei a delirar sobre o porque do fascínio pelas redes sociais.

Minha teoria é a seguinte: a segurança da distância da realidade nos dá a possibilidade de criar personagens que mais são nossos alter-egos do que nós mesmos. Com essa corrida pelo titulo de 'pessoa mais feliz-inteligente-realizada-bonita da face da terra' surgem alguns comportamentos que eu não entendo muito bem. Uma rápida olhada no meu feed de noticias da rede social me deixa as seguintes impressões:

A julgar por algumas fotos, procurando posar somente em ângulos que lhes favoreçam, algumas pessoas parecem ter somente um lado do rosto.

Todos são filósofos em potencial.  De vez em quando sou agraciado com pequenas lições de vida diárias nos mais variados tópicos, como amor, amizade, trabalho ou ataque nuclear. Com tantas citações e filosofias de vida, não me admira que autores de livros de auto-ajuda entrem em falência e um dia eu encontre Augusto Cury morando numa caixa de papelão na rua.

Depois da criação dos Instagram as comidas criaram poderes fotogênicos irresistíveis. Não importa se é  um sanduíche de mortadela ou o miojo fervendo na panela, aquele momento  merece a posteridade gastronômica.

Espelhos de banheiro exercem algum tipo de hipnose que leva pessoas a tirarem fotos refletidas neles, sem se importar com o plano de fundo, mesmo que seja toda a roupa intima secando num varal.

Tudo bem usar o photoshop para corrigir algumas imperfeições, mas para alguns, a palavra 'limite' é só um programa de tv onde pessoas comiam olhos de cabras. Com tantos efeitos o protagonista da foto fica parecendo uma estatua de cera do museu da Madame Tussaud.

Me esforço sem sucesso em entender o interesse nas fotos com filtros representando cupcakes e copos de café do Starbucks seguido de infinitas hastags: "#coffee #vanilla #cup #lunchbreak" ou "#fruitsalad #banana #melon #orange #grapes #peach #apple".

Mas tudo bem, eu compreendo o apego as redes sociais, afinal, como não amar um país das maravilhas onde você pode ser quem quiser!

(Excerto você mesmo).

- Miau!

17 de março de 2013

O calor dos trópicos


A costa leste do litoral cearense onde moro é dotada de algumas das mais lindas praias do Brasil. No período de alta estação as praias ficam apinhadas de turistas com sua brancura fantasmagórica e dificuldade crônica de falar qualquer palavra em português além de ‘caipirinha’ ou ‘carnaval’. Para eles que passam férias aqui e retornam para seus lares, levando em suas bagagens quilos de café e sandálias havaianas, evocar o período em que estiveram por estas bandas deve ser agradável, mas para mim que moro aqui em tempo integral o mesmo não ocorre.

O caso é que tive que me conformar com certas coisas, aceitando-as como espinhos inevitáveis na estrada da minha vida. Um dos piores espinhos é o calor. Desprovido de melanina como sou (não tanto quanto um turista), não poderia haver outro lugar mais inapropriado para eu nascer. Só posso imaginar que a cegonha que me entregou resolveu dar uma volta pelo triangulo das bermudas e acidentalmente saiu da rota, desviando-se milhas do local de entrega original. Ou isso ou ela deveria visitar imediatamente o AAA: Aves alcoólatras Anônimas.

O calor e a incidência solar é tanta que as vezes tenho a impressão que a linha do equador cruza minha casa, dividindo meu quarto ao meio. No percurso a pé que faço do entre meu lar e o trabalho no horário de almoço, sinto-me o próprio Moisés atravessando o deserto do Sinai. E o calor não limita-se somente ao dia, algumas vezes as noites também são quentes. Jamais entendi meus amigos que conservavam o costume de dormir com o ventilador ligado. “É puro hábito” – eu costumava dizer. Mas com essa mudança climática, estou disposto a mudar meus conceitos quanto a isso.

Numa noite em particular quando eu já não suportava mais, procurei na internet alguma explicação na esperança do erro estar em mim e não no clima. Confiante, eu cliquei no link sobre ‘sintomas de calor excessivo’ mas a explicação dada pelo site era a de que eu poderia estar na menopausa. Em casos assim eu tenho que me controlar para não agarrar meu travesseiro, ir até a cozinha e dormir confortavelmente dentro do refrigerador, sonhando que sou um esquimó.

 

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