22 de junho de 2013

A Rede (Anti) Social


A luz de manutenção do meu carro acendeu - Disse meu chefe  irrompendo na minha sala numa tarde de sexta-feira enquanto eu tentava posicionar meu monitor de maneira que só eu pudesse ver um desses videos de gatos fazendo coisas engraçadas no youtube.

- "Como é?" - Exclamei com um rápido movimento do mouse e na confusão, em vez de fechar o navegador,  apertei o play. Reações rápidas não são o meu forte.

- Tenho que lembrar de ir na oficina - Continuou ele.

"Miau" - fez o gato do vídeo.

Tentando me recompor, perguntei:  - A quanto tempo está assim?

- Quase quatro meses. - Disse ele - É incrível! Passo todo esse tempo com a luz de manutenção do carro piscando, mas não consigo dormir com o ícone de notificação do Facebook mostrando uma atualização. (miau novamente).

- Estamos muito apegados a essas redes sociais - concluiu ele.

- É - Respondi. "Miau" - respondeu o gato.

Meu chefe revirou os olhos.

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Mais tarde naquele dia quando os níveis de açúcar no meu sangue estavam perigosamente baixos e minha imaginação estava perigosamente alta, eu comecei a delirar sobre o porque do fascínio pelas redes sociais.

Minha teoria é a seguinte: a segurança da distância da realidade nos dá a possibilidade de criar personagens que mais são nossos alter-egos do que nós mesmos. Com essa corrida pelo titulo de 'pessoa mais feliz-inteligente-realizada-bonita da face da terra' surgem alguns comportamentos que eu não entendo muito bem. Uma rápida olhada no meu feed de noticias da rede social me deixa as seguintes impressões:

A julgar por algumas fotos, procurando posar somente em ângulos que lhes favoreçam, algumas pessoas parecem ter somente um lado do rosto.

Todos são filósofos em potencial.  De vez em quando sou agraciado com pequenas lições de vida diárias nos mais variados tópicos, como amor, amizade, trabalho ou ataque nuclear. Com tantas citações e filosofias de vida, não me admira que autores de livros de auto-ajuda entrem em falência e um dia eu encontre Augusto Cury morando numa caixa de papelão na rua.

Depois da criação dos Instagram as comidas criaram poderes fotogênicos irresistíveis. Não importa se é  um sanduíche de mortadela ou o miojo fervendo na panela, aquele momento  merece a posteridade gastronômica.

Espelhos de banheiro exercem algum tipo de hipnose que leva pessoas a tirarem fotos refletidas neles, sem se importar com o plano de fundo, mesmo que seja toda a roupa intima secando num varal.

Tudo bem usar o photoshop para corrigir algumas imperfeições, mas para alguns, a palavra 'limite' é só um programa de tv onde pessoas comiam olhos de cabras. Com tantos efeitos o protagonista da foto fica parecendo uma estatua de cera do museu da Madame Tussaud.

Me esforço sem sucesso em entender o interesse nas fotos com filtros representando cupcakes e copos de café do Starbucks seguido de infinitas hastags: "#coffee #vanilla #cup #lunchbreak" ou "#fruitsalad #banana #melon #orange #grapes #peach #apple".

Mas tudo bem, eu compreendo o apego as redes sociais, afinal, como não amar um país das maravilhas onde você pode ser quem quiser!

(Excerto você mesmo).

- Miau!

 

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