11 de agosto de 2013

Um problema de lentes


Melhor assim ou assim? - Me indagou o oftalmologista, trocando as lentes do aparelho na frente dos meus olhos enquanto eu olhava para um cartaz que pelos meus cálculos, deveria estar a cinco quilômetros de distancia pregado na parede do consultório.

- Não consigo ver diferença entre os dois - falei.

- Bom! Você vai ter que decidir! - retrucou o oftalmologista meio sem paciência.

"E meus pais pagando R$ 25,00 (não era tão barato, estamos em 1994) para eu ouvir isso!" - pensei.

É sempre assim que começa a trajetória daqueles que não são muito agraciados com uma boa visão. No consultório do oftalmologista naquele dia, aos sete anos de idade, me ocorreu que talvez usar óculos não era a coisa mais legal de todas.

Eu estava certo.

Com o passar dos anos descobri que os óculos são um tipo de punição subliminar, do tipo que deixa a pessoa com aspecto de intelectual, mas somente quem usa pode realmente sentir na pele, digo, nos olhos, essa tortura. Mesmo tarefas simples do dia a dia requerem habilidades profissionais, isso porque os óculos tem peculiaridades únicas.

Começando pelo fato (injusto) que você não consegue encontrar seus óculos porque não consegue enxerga-los. Circulo vicioso.

"Porque ainda não inventaram óculos com um acessório igual aqueles limpadores de para-brisa dos carros?"

Tomar café, sopa, chá ou qualquer outra bebida quente nos dá a sensação de estar dentro de um nevoeiro, porque as lentes embaçam.

Nada nos proporciona um aspecto mais estranho do que ir ao cinema assistir um filme em 3D, usando um par de óculos em cima de outro, acabamos chamando mais atenção do que os efeitos tridimensionais do filme.

Ir a piscina ou praia é um dilema. Ou se escolhe divertir-se na água ou se escolhe enxergar alguma coisa. Andar em dias de chuva me faz pensar "porque ainda não inventaram óculos com um acessório igual aqueles limpadores de para-brisa dos carros"?

Tentar beijar alguém usando óculos é uma tarefa arriscada. Um movimento errado e alguém pode ficar cego.

Não se deve nunca esquecer de tira-los antes de dormir, as chances de você acordar com o que parece ser uma escultura pós moderna de arame e vidro toda retorcida no seu rosto são enormes.

Jamais se deve segurar os óculos pelas lentes, isso desperta a fúria mortal de qualquer quatro olhos, a marca de uma digital acompanhando o olhar por todos os cantos nunca é uma visão agradável.

Anos depois, cansado daquilo, atilei longe meus óculos, mas cinco minutos depois eu já tinha tropeçado no gato e colocado sal no meu café. Voltei derrotado tateando o chão em busca deles novamente.

É como dizem. Ruim com eles, pior sem eles.

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