23 de maio de 2014

A ciência da preguiça



A sensação de ficar deitado e fazer nada pode ser boa - as vezes boa até demais. Seja para evitar trabalho ou escapar de atividades físicas, todos nós nos sentimos assim de vez em quando. Mas porque algumas pessoas são mais preguiçosas do que outras? Existe algum gene molenga que causa comportamento preguiçoso?

A evolução modelou nossos cérebros e corpos a responder de maneira positiva a impulsos como comida, sexo, e acredite, até exercícios. A sensação de prazer que sentimos vem na sua maior parte do sistema dopamínico em nosso cérebro, que envia essas mensagens através do corpo com a função de ajudar manter a sobrevivência da nossa espécie.

Para alguns a sensação causada pelo exercício pode ser tão viciante quanto comida e sexo, mas enquanto a maioria compartilha o desejo por comida e sexo, alguns sentem dificuldades em querer praticar atividades físicas, embora seja uma parte essencial da biologia humana.

Estudando ratos, cientistas da Universidade da Carolina do Norte encontraram uma interessante conexão. Depois de separa-los em dois grupos: aqueles que escolheram correr constantemente na roda e aqueles que escolheram não correr muito. Houve uma clara diferença nas suas crias, dez gerações depois os ratos mais ativos corriam 75% mais vezes do que os ratos do grupo sedentário e dezesseis gerações depois eles corriam 11,5km contra os 6,5km do outro grupo. Ao que parece, a motivação para atividade física é genética.

Todos nós herdamos genes dos nossos pais que são usados na formação de nossos cérebros, e esses genes podem criar, literalmente, predisposição ao desejo por atividades. De fato, o cérebro dos ratos que corriam tinham maiores sistema dopaminico e regiões que assimilavam motivação e recompensa. Eles precisavam de atividade, do contrario, seus cérebros iriam reagir da mesma forma que um viciado em cocaína ou nicotina em abstinência. Eles eram geneticamente viciados em correr.

Nós também herdamos genes responsáveis por outros traços como impulsividade, procrastinação, comportamento profissional e preguiça. Acontece que este ultimo tem ligação com o gene molenga, ou melhor, uma mutação no gene normal que regula o nível de atividade física. Esse gene é responsável por um tipo de  receptor de dopamina, sem ele, você vai preferir mais ficar deitado e fazer menos do que aqueles que tem esse gene funcionando normalmente.

A verdade é que o desejo por atividades pode não estar totalmente em seu controle, mas muitos fatores externos também contribuem para isso. O que não significa que você esteja condenado a uma vida de preguiça, se você acha que o gene molenga anda rondando seu DNA.

28 de abril de 2014

Aromatizado e colorido artificialmente


Eu não posso ser o único que acha estranho comer algo que poderia ser, ao que tudo indica, isopor com cheiro, cor e sabor artificial. Ok. Não temos mais tempo de cultivar a própria horta  e suponho que a maioria não se imagina correndo atrás de uma galinha de um lado para o outro do quintal como faziam nossos avós quando iam preparar o almoço. Mas será que algum de nós já parou para pensar o que é esse tal “corante Caramelo IV” dos refrigerantes ou o “edulcorante E 951” dos iogurtes? Não sou nenhum Erin Brockovich, mas quando o composto de uma comida se transforma numa sigla numérica, algo está errado.

“Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”

Sim, todo nós sabemos que comida industrializada não tem como lema “saúde em primeiro lugar”, mas isso vai mudar nosso hábitos alimentícios? Dificilmente. E entendo que o fato de estar comendo lasanha industrializada enquanto escrevo esse artigo não ajuda muito a dar força ao meu argumento.

Mas quando foi a ultima vez que você ouviu alguém exclamar: “Hum! Que brócolis delicioso!” A grande maioria prefere é um hambúrguer do McDonnalds mesmo. Em se falando do hambúrguer do MCDonalds: Em 2012 o chef Jamie Oliver conseguiu provar que a carne usada para criar o recheio deles é a mesma usada para fabricar alimento para cães, e que a rede de lanchonetes utilizava hidróxido de amônia na tentativa de reduzir a quantidade de micróbios dela, num metodo que Oliver batizou de “processo da gosma rosa”.

Tentando convencer um grupo de crianças sobre o tipo de comida que eles estavam ingerindo nas redes fast-food, Oliver demonstrou o processo de fabricação a elas, jogando a carcaça do frango junto com restos de pele e vísceras no triturador, enquanto as crianças se contorciam de nojo, depois adiconou aromatizantes e estabilizadores, fez um bolinho, passou na farinha de rosca e fritou. “Quem ainda tem coragem de comer isso?” – Ele perguntou desafiadoramente. Todas as crianças levantaram a mão. Se sentindo derrotado ele quis saber “Mas, porquê?” “Porque estamos com fome” – Foi a resposta em uníssono.

Meu amigo Diogo, cuja ultima vez que comeu uma fruta foi provavelmente ainda nos anos 90, disse ter conseguido abreviar todo o conceito de alimentação saudável numa única frase: “Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”.

Quando Friedrich Nietzsche disse que “O que não nos mata, nos fortalece”, ele não contava com o fator alimentício. E agora se  me dão licença, a água do miojo já está fervendo, e para desencargo de consciência eu utilizo o mesma desculpa das crianças e finjo que não estou comendo veneno gostoso.

E reformulando um antigo ditado: O que os olhos não veem… as artérias sentem.

23 de abril de 2014

Compressor: a máquina infernal


No livro “The egg and I” (O ovo e eu) de 1945, Betty MacDonald descreve suas hilárias aventuras como uma esposa recém-casada que se muda da cidade para o interior para cuidar de uma granja com o marido Bob.

Francamente, eu tenho horror a tudo quanto é enlatado em casa. Em toda folguinha que arranjava, vivia lendo sobre botulismo. Bob, por outro lado, adorava isso de corpo e alma. Quando ele enlatava na dispensa – que era maior que qualquer cozinha – demonstrava a mais pura alegria ao ver as fileiras e mais fileiras de potes reluzentes. As mulheres da região eram julgadas não pelo que vestiam, mas pelo que faziam na dispensa. Os maridos sem acanhamento nenhum, escancaravam as portas da dispensa e desafiavam a esposa a enlatar ainda mais coisas de tudo que poderia existir.

Eu advertia Bob, quando comecei a lidar com potes, tampas, açúcar e o compressor, que as amoras do ano passado tinham gosto de lã. Mas ele foi inflexível. Portanto, mãos a obra! Toca a enlatar durante o verão todo. Cada vez que eu ia ao jardim, voltava vergada ao peso de cargas insuportáveis. Nunca me vira face a face com tanta produtividade. Pés de ervilhas cheias de vagens enormes, os pés de feijão vergando com com o peso de feijões gigantescos, cenouras com os ombros nus fora da terra, para me mostrar que já estavam prontas, aboboras que nem a uma hora atrás ainda estavam em flor, e eu também enchia um balde de cerejas que apanhava de um galho mais baixo da velha cerejeira que sombreava a cozinha.

Birdie Hicks bateu todos os recordes. Evidentemente ela passava as noites de pé, enlatando, durante o verão e o começo do outono, pois as sete e quinze ela aparecia lá em casa, elegante e penteada, e me dizia (enquanto seu olhar penetrante ia notando que eu ainda não havia lavado a louça do café, não tinha arrumado a casa, não tinha banhado a criança  e não tinha esfregado o chão antes de começar a enlatar) que tinha justamente terminado de enlatar trinta a cinco quilos de milho, oitenta e dois de vagem, e um pote de cinco galões de conserva de coentro. Ela partia os pêssegos em duas metades perfeitas, e empilhava nos potes, como nas figuras dos livros.

Lá pelo fim do verão, as galinhas estavam botando e Bob separando os bandos. Sem que eu lhe desse o menor apoio, ele decidiu que, já que o preço dos frangos estavam baixos, eu deveria enlata-los também. Parecia ao meu pobre espirito conturbado que Bob andava milhas e milhas só para descobrir mais coisas que eu pudesse enlatar; que ele reprovara energeticamente um minuto sequer do meu tempo que não fosse empregado nesse serviço; que volta e meia ele entrava na cozinha, cambaleando sob o peso de um cesto cheio de alguma coisa para eu enlatar. Minha primeira reação foi homicídio, depois suicídio, e por fim chorosa resignação.

Quando ele trouxe as três primeiras galinhas escolhidas, eu acremente comentei que “não era só o compresso que estava trabalhando sobre pressão”. Mas não obtive nenhuma resposta. Mais tarde por causa do meu comentário, ele disse que o desastre aconteceu por minha culpa . Juro que não foi. Mas senti que Deus tivera piedade de mim, pois o compressor foi pelos ares. Foi o dia mais feliz da minha vida, embora eu pudesse também ter morrido. Um pino foi atirado pela porta da cozinha, as paredes ficaram salpicadas de asas e miúdos de galinha, o chão nadava em molho de carne, e a tampa de alumínio partiu-se em duas, batendo no forro com tal força, que deixou duas marcas em forma de meia lua sobre o fogão. Fiquei delirando de alegria. Não sabia como tinha acontecido aquilo, mas nem me importava. Eu estava livre.

Depois do almoço, quando sai cantarolando pela casa, catando pedaços de galinha das molduras dos quadros e do espelho do quarto, Bob me contemplou meditativamente. Em seguida pegou o catalogo Sears Roebuck, e começou a procurar um tipo de compressor maior, mais rápido e mais forte.

Moradora por muitos anos do estado de Washington, Betty MacDonald (1908-1958) escreveu quatro livros autobiográficos humorísticos e vários livros infantis. Seu livro mais conhecido O ovo e eu, foi best-seller nos Estados Unidos em 1945.

14 de abril de 2014

Final feliz


O website do jornal online dizia numa das manchetes "Marido morre afogado quando jogava cinzas da mulher no mar". Mais abaixo um dos leitores comentou "E viveram felizes para sempre"

1 de abril de 2014

A incapacidade de mudar


Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas. Eu não sei bem quem foi a primeira pessoa que disse isso. Talvez Shakespeare. Ou até Sting. Mas, no momento, essa é a frase que melhor explica meu defeito trágico: a minha incapacidade de mudar.

Eu acho que não estou sozinho nessa.

Quanto mais eu conheço outras pessoas, mais eu percebo que é uma espécie de falha universal. Permanecer exatamente o mesmo o maior tempo possível , imóvel, estático... De alguma maneira dá a sensação de segurança. E se você está sofrendo, bem, pelo menos a dor é familiar. Porque se você dá aquele salto de fé, sai da zona de conforto, faz uma coisa inesperada... Quem sabe que outra dor pode estar lá fora, esperando por você? As chances são de que poderia ser ainda pior. Então você mantem o status quo. Escolher um caminho conhecido não parece tão ruim assim. Não é lá grande coisa. Você não é um viciado em drogas. Você não está matando ninguém... Exceto, quem sabe, a si mesmo um pouco.

Quando finalmente mudamos de fato, eu não acho que isso aconteça como um terremoto ou uma explosão, onde de repente nós somos essa pessoa diferente. Eu acho que é menor do que isso. O tipo de coisa que a maioria das pessoas nem sequer nota a menos que nos olhem bem de perto. O que, graças a Deus, ninguém nunca faz. Mas você nota. Dentro de você que a mudança faz um mundo de diferença. E você espera que essa seja ela, esta seja a pessoa que você será para sempre.

E que você nunca tenha que mudar de novo.

— Ephram Brown, personagem de Gregory Smith na série Everwood, narrando sua dificuldade em mudar.
25 de março de 2014

Ho'oponopono


O que? - Perguntei, achando que não tinha escutado direito. - “Ho'oponopono” repetiu minha colega de trabalho Helen, que trabalha na sala ao lado. É uma técnica de cura interior – Disse ela, levantado a blusa a altura da barriga e mostrando um pedaço de fita adesiva que cobria seu umbigo. Por um momento achei que fosse um curativo, mas ela apressou-se em explicar que segundo a técnica, cobrir o umbigo evitava que as mas vibrações lhe atingissem. “Ah, sim” – respondi, me fazendo de entendido.

Usando uma quantidade de piercings que deveria ser ilegal, a jovem com estilo punk e cabelo vermelho se aproximou do balcão da recepção do hospital onde trabalho. Com um sorriso ela pediu a senha do Wi-Fi. “Sinto muito -  respondi - é somente para fins profissionais”. (Mais tarde minha colega me explicaria que “negar a senha do Wi-Fi é equivalente a negar um copo d'água hoje em dia”). O sorriso dela rapidamente se desfez e antes de sair me lançou um olhar que fez O silencio dos inocentes parecer Mary Poppins.

Pressentindo as más vibrações, tratei logo de cobrir meu umbigo com fita adesiva. Um segurança que passava pela porta no momento que eu terminava de aplicar minha barreira-anti-baixo-astral comentou “Eu não quero nem saber” antes que eu pudesse me explicar, e saiu. Ainda corri até a porta e gritei em sua direção: “Isso evita as mas vibrações!”, mas ele me ignorou com um movimento da mão.

Ir ao médico não é o passatempo preferido da maioria (a menos que você seja hipocondríaco). Já me conformei que por mais que eu ponha meu melhor sorriso e puxe a alavanca da paciência até o máximo, vou sempre estar lidando com pessoas de mal humor, tossindo, espirrando, e vomitando em meus sapatos. Isso justifica o fato do estoque de calmantes no hospital ser tão bem protegido, do contrario eu já teria corrido em disparada até o setor de medicações, agarrado o maior frasco e devorado eles como quem come MM’s.

Ainda estou me habituando a comentários durante o almoço no refeitório do tipo “fulano veio a óbito” “Sim – respondia uma das enfermeiras – Eu troquei o curativo dele pela ultima vez, e meu Deus do céu, nunca vi tanto pus”. Enquanto eu sinto meu apetite desvanecer olhando para o creme de galinha no meu prato e toda a equipe continua comendo alegremente.

Conversando com um amigo sobre isso, ele deu uma gargalhada e jurou que me advertiu das implicações de se trabalhar num Hospital. Mas eu achava isso tão impossível como se um noivo dissesse a sua futura esposa antes de casar: – E outra coisa maravilhosa, querida. Uma prostituta, velha amiga minha vai morar conosco.
O Ho'oponopono ainda está em fase de testes, mas se funcionar, farei da fita adesiva um artigo de primeira necessidade.

3 de março de 2014

Sinais


A velocidade do crescimento habitacional na minha cidade é tanta que a fauna não teve tempo de se adaptar. Em poucos meses, bosques e vegetação dão lugar a novos condomínios de casas, e onde antes haviam arvores hoje existem postes. Assim não é difícil encontrar um gambá no telhado, ou uma cobra no quintal.

Um sagui desavisado de tais mudanças paisagísticas teve o azar de escolher seu percurso entre os fios da rede elétrica. Não sei bem quando aconteceu, mas algo deu muito errado enquanto ele pulava de um fio para o outro, porque a única coisa que restou dele foi a carcaça ressequida pendurada no cabo de alta tensão, feito o gato do pôster ‘hang in there’ (só que bem menos inspirativo).

Por muitos meses eu vi aquela figurinha cadavérica no caminho para o trabalho, e fiquei imaginando se os outros saguis a consideravam como sinal da má combinação entre a sua espécie e a eletricidade.

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Como assim ‘adoce a gosto? – falei com raiva, enquanto lia as instruções atrás da embalagem. Pode parecer estranho que uma receita com apenas três ingredientes seja um mistério para mim comparável ao Triangulo das Bermudas, mas quando se trata de preparar um bule de café eu preciso de instruções claras ou terminarei com uma bebida que faz os diabéticos desmaiarem em apenas sentir o cheio dela.

Após a milionésima tentativa, eu prometi a mim mesmo nunca mais preparar nenhum tipo de café: A perspectiva de começar o dia com um fracasso não é a mais animadora. Afinal, morar num pais conhecido pelo café e futebol sem ter habilidade em nenhum dos dois é um pouco estranho. Espero não atender a porta um dia e encontrar dois fiscais da imigração dizendo que após longa pesquisa eles descobriram que na verdade eu sou islandês e que devo ser deportado em breve.

Isso explicaria muita coisa.

Como os saguis, sempre que olhar para uma coador eu vou entender como um sinal da má combinação entre mim e o café.

 

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