25 de março de 2014

Ho'oponopono


O que? - Perguntei, achando que não tinha escutado direito. - “Ho'oponopono” repetiu minha colega de trabalho Helen, que trabalha na sala ao lado. É uma técnica de cura interior – Disse ela, levantado a blusa a altura da barriga e mostrando um pedaço de fita adesiva que cobria seu umbigo. Por um momento achei que fosse um curativo, mas ela apressou-se em explicar que segundo a técnica, cobrir o umbigo evitava que as mas vibrações lhe atingissem. “Ah, sim” – respondi, me fazendo de entendido.

Usando uma quantidade de piercings que deveria ser ilegal, a jovem com estilo punk e cabelo vermelho se aproximou do balcão da recepção do hospital onde trabalho. Com um sorriso ela pediu a senha do Wi-Fi. “Sinto muito -  respondi - é somente para fins profissionais”. (Mais tarde minha colega me explicaria que “negar a senha do Wi-Fi é equivalente a negar um copo d'água hoje em dia”). O sorriso dela rapidamente se desfez e antes de sair me lançou um olhar que fez O silencio dos inocentes parecer Mary Poppins.

Pressentindo as más vibrações, tratei logo de cobrir meu umbigo com fita adesiva. Um segurança que passava pela porta no momento que eu terminava de aplicar minha barreira-anti-baixo-astral comentou “Eu não quero nem saber” antes que eu pudesse me explicar, e saiu. Ainda corri até a porta e gritei em sua direção: “Isso evita as mas vibrações!”, mas ele me ignorou com um movimento da mão.

Ir ao médico não é o passatempo preferido da maioria (a menos que você seja hipocondríaco). Já me conformei que por mais que eu ponha meu melhor sorriso e puxe a alavanca da paciência até o máximo, vou sempre estar lidando com pessoas de mal humor, tossindo, espirrando, e vomitando em meus sapatos. Isso justifica o fato do estoque de calmantes no hospital ser tão bem protegido, do contrario eu já teria corrido em disparada até o setor de medicações, agarrado o maior frasco e devorado eles como quem come MM’s.

Ainda estou me habituando a comentários durante o almoço no refeitório do tipo “fulano veio a óbito” “Sim – respondia uma das enfermeiras – Eu troquei o curativo dele pela ultima vez, e meu Deus do céu, nunca vi tanto pus”. Enquanto eu sinto meu apetite desvanecer olhando para o creme de galinha no meu prato e toda a equipe continua comendo alegremente.

Conversando com um amigo sobre isso, ele deu uma gargalhada e jurou que me advertiu das implicações de se trabalhar num Hospital. Mas eu achava isso tão impossível como se um noivo dissesse a sua futura esposa antes de casar: – E outra coisa maravilhosa, querida. Uma prostituta, velha amiga minha vai morar conosco.
O Ho'oponopono ainda está em fase de testes, mas se funcionar, farei da fita adesiva um artigo de primeira necessidade.

3 de março de 2014

Sinais


A velocidade do crescimento habitacional na minha cidade é tanta que a fauna não teve tempo de se adaptar. Em poucos meses, bosques e vegetação dão lugar a novos condomínios de casas, e onde antes haviam arvores hoje existem postes. Assim não é difícil encontrar um gambá no telhado, ou uma cobra no quintal.

Um sagui desavisado de tais mudanças paisagísticas teve o azar de escolher seu percurso entre os fios da rede elétrica. Não sei bem quando aconteceu, mas algo deu muito errado enquanto ele pulava de um fio para o outro, porque a única coisa que restou dele foi a carcaça ressequida pendurada no cabo de alta tensão, feito o gato do pôster ‘hang in there’ (só que bem menos inspirativo).

Por muitos meses eu vi aquela figurinha cadavérica no caminho para o trabalho, e fiquei imaginando se os outros saguis a consideravam como sinal da má combinação entre a sua espécie e a eletricidade.

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Como assim ‘adoce a gosto? – falei com raiva, enquanto lia as instruções atrás da embalagem. Pode parecer estranho que uma receita com apenas três ingredientes seja um mistério para mim comparável ao Triangulo das Bermudas, mas quando se trata de preparar um bule de café eu preciso de instruções claras ou terminarei com uma bebida que faz os diabéticos desmaiarem em apenas sentir o cheio dela.

Após a milionésima tentativa, eu prometi a mim mesmo nunca mais preparar nenhum tipo de café: A perspectiva de começar o dia com um fracasso não é a mais animadora. Afinal, morar num pais conhecido pelo café e futebol sem ter habilidade em nenhum dos dois é um pouco estranho. Espero não atender a porta um dia e encontrar dois fiscais da imigração dizendo que após longa pesquisa eles descobriram que na verdade eu sou islandês e que devo ser deportado em breve.

Isso explicaria muita coisa.

Como os saguis, sempre que olhar para uma coador eu vou entender como um sinal da má combinação entre mim e o café.

 

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