28 de abril de 2014

Aromatizado e colorido artificialmente


Eu não posso ser o único que acha estranho comer algo que poderia ser, ao que tudo indica, isopor com cheiro, cor e sabor artificial. Ok. Não temos mais tempo de cultivar a própria horta  e suponho que a maioria não se imagina correndo atrás de uma galinha de um lado para o outro do quintal como faziam nossos avós quando iam preparar o almoço. Mas será que algum de nós já parou para pensar o que é esse tal “corante Caramelo IV” dos refrigerantes ou o “edulcorante E 951” dos iogurtes? Não sou nenhum Erin Brockovich, mas quando o composto de uma comida se transforma numa sigla numérica, algo está errado.

“Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”

Sim, todo nós sabemos que comida industrializada não tem como lema “saúde em primeiro lugar”, mas isso vai mudar nosso hábitos alimentícios? Dificilmente. E entendo que o fato de estar comendo lasanha industrializada enquanto escrevo esse artigo não ajuda muito a dar força ao meu argumento.

Mas quando foi a ultima vez que você ouviu alguém exclamar: “Hum! Que brócolis delicioso!” A grande maioria prefere é um hambúrguer do McDonnalds mesmo. Em se falando do hambúrguer do MCDonalds: Em 2012 o chef Jamie Oliver conseguiu provar que a carne usada para criar o recheio deles é a mesma usada para fabricar alimento para cães, e que a rede de lanchonetes utilizava hidróxido de amônia na tentativa de reduzir a quantidade de micróbios dela, num metodo que Oliver batizou de “processo da gosma rosa”.

Tentando convencer um grupo de crianças sobre o tipo de comida que eles estavam ingerindo nas redes fast-food, Oliver demonstrou o processo de fabricação a elas, jogando a carcaça do frango junto com restos de pele e vísceras no triturador, enquanto as crianças se contorciam de nojo, depois adiconou aromatizantes e estabilizadores, fez um bolinho, passou na farinha de rosca e fritou. “Quem ainda tem coragem de comer isso?” – Ele perguntou desafiadoramente. Todas as crianças levantaram a mão. Se sentindo derrotado ele quis saber “Mas, porquê?” “Porque estamos com fome” – Foi a resposta em uníssono.

Meu amigo Diogo, cuja ultima vez que comeu uma fruta foi provavelmente ainda nos anos 90, disse ter conseguido abreviar todo o conceito de alimentação saudável numa única frase: “Se tiver gosto bom faz mal, mas se tem gosto de algo esquecido a três meses dentro da geladeira, deve fazer bem à saúde”.

Quando Friedrich Nietzsche disse que “O que não nos mata, nos fortalece”, ele não contava com o fator alimentício. E agora se  me dão licença, a água do miojo já está fervendo, e para desencargo de consciência eu utilizo o mesma desculpa das crianças e finjo que não estou comendo veneno gostoso.

E reformulando um antigo ditado: O que os olhos não veem… as artérias sentem.

23 de abril de 2014

Compressor: a máquina infernal


No livro “The egg and I” (O ovo e eu) de 1945, Betty MacDonald descreve suas hilárias aventuras como uma esposa recém-casada que se muda da cidade para o interior para cuidar de uma granja com o marido Bob.

Francamente, eu tenho horror a tudo quanto é enlatado em casa. Em toda folguinha que arranjava, vivia lendo sobre botulismo. Bob, por outro lado, adorava isso de corpo e alma. Quando ele enlatava na dispensa – que era maior que qualquer cozinha – demonstrava a mais pura alegria ao ver as fileiras e mais fileiras de potes reluzentes. As mulheres da região eram julgadas não pelo que vestiam, mas pelo que faziam na dispensa. Os maridos sem acanhamento nenhum, escancaravam as portas da dispensa e desafiavam a esposa a enlatar ainda mais coisas de tudo que poderia existir.

Eu advertia Bob, quando comecei a lidar com potes, tampas, açúcar e o compressor, que as amoras do ano passado tinham gosto de lã. Mas ele foi inflexível. Portanto, mãos a obra! Toca a enlatar durante o verão todo. Cada vez que eu ia ao jardim, voltava vergada ao peso de cargas insuportáveis. Nunca me vira face a face com tanta produtividade. Pés de ervilhas cheias de vagens enormes, os pés de feijão vergando com com o peso de feijões gigantescos, cenouras com os ombros nus fora da terra, para me mostrar que já estavam prontas, aboboras que nem a uma hora atrás ainda estavam em flor, e eu também enchia um balde de cerejas que apanhava de um galho mais baixo da velha cerejeira que sombreava a cozinha.

Birdie Hicks bateu todos os recordes. Evidentemente ela passava as noites de pé, enlatando, durante o verão e o começo do outono, pois as sete e quinze ela aparecia lá em casa, elegante e penteada, e me dizia (enquanto seu olhar penetrante ia notando que eu ainda não havia lavado a louça do café, não tinha arrumado a casa, não tinha banhado a criança  e não tinha esfregado o chão antes de começar a enlatar) que tinha justamente terminado de enlatar trinta a cinco quilos de milho, oitenta e dois de vagem, e um pote de cinco galões de conserva de coentro. Ela partia os pêssegos em duas metades perfeitas, e empilhava nos potes, como nas figuras dos livros.

Lá pelo fim do verão, as galinhas estavam botando e Bob separando os bandos. Sem que eu lhe desse o menor apoio, ele decidiu que, já que o preço dos frangos estavam baixos, eu deveria enlata-los também. Parecia ao meu pobre espirito conturbado que Bob andava milhas e milhas só para descobrir mais coisas que eu pudesse enlatar; que ele reprovara energeticamente um minuto sequer do meu tempo que não fosse empregado nesse serviço; que volta e meia ele entrava na cozinha, cambaleando sob o peso de um cesto cheio de alguma coisa para eu enlatar. Minha primeira reação foi homicídio, depois suicídio, e por fim chorosa resignação.

Quando ele trouxe as três primeiras galinhas escolhidas, eu acremente comentei que “não era só o compresso que estava trabalhando sobre pressão”. Mas não obtive nenhuma resposta. Mais tarde por causa do meu comentário, ele disse que o desastre aconteceu por minha culpa . Juro que não foi. Mas senti que Deus tivera piedade de mim, pois o compressor foi pelos ares. Foi o dia mais feliz da minha vida, embora eu pudesse também ter morrido. Um pino foi atirado pela porta da cozinha, as paredes ficaram salpicadas de asas e miúdos de galinha, o chão nadava em molho de carne, e a tampa de alumínio partiu-se em duas, batendo no forro com tal força, que deixou duas marcas em forma de meia lua sobre o fogão. Fiquei delirando de alegria. Não sabia como tinha acontecido aquilo, mas nem me importava. Eu estava livre.

Depois do almoço, quando sai cantarolando pela casa, catando pedaços de galinha das molduras dos quadros e do espelho do quarto, Bob me contemplou meditativamente. Em seguida pegou o catalogo Sears Roebuck, e começou a procurar um tipo de compressor maior, mais rápido e mais forte.

Moradora por muitos anos do estado de Washington, Betty MacDonald (1908-1958) escreveu quatro livros autobiográficos humorísticos e vários livros infantis. Seu livro mais conhecido O ovo e eu, foi best-seller nos Estados Unidos em 1945.

14 de abril de 2014

Final feliz


O website do jornal online dizia numa das manchetes "Marido morre afogado quando jogava cinzas da mulher no mar". Mais abaixo um dos leitores comentou "E viveram felizes para sempre"

1 de abril de 2014

A incapacidade de mudar


Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas. Eu não sei bem quem foi a primeira pessoa que disse isso. Talvez Shakespeare. Ou até Sting. Mas, no momento, essa é a frase que melhor explica meu defeito trágico: a minha incapacidade de mudar.

Eu acho que não estou sozinho nessa.

Quanto mais eu conheço outras pessoas, mais eu percebo que é uma espécie de falha universal. Permanecer exatamente o mesmo o maior tempo possível , imóvel, estático... De alguma maneira dá a sensação de segurança. E se você está sofrendo, bem, pelo menos a dor é familiar. Porque se você dá aquele salto de fé, sai da zona de conforto, faz uma coisa inesperada... Quem sabe que outra dor pode estar lá fora, esperando por você? As chances são de que poderia ser ainda pior. Então você mantem o status quo. Escolher um caminho conhecido não parece tão ruim assim. Não é lá grande coisa. Você não é um viciado em drogas. Você não está matando ninguém... Exceto, quem sabe, a si mesmo um pouco.

Quando finalmente mudamos de fato, eu não acho que isso aconteça como um terremoto ou uma explosão, onde de repente nós somos essa pessoa diferente. Eu acho que é menor do que isso. O tipo de coisa que a maioria das pessoas nem sequer nota a menos que nos olhem bem de perto. O que, graças a Deus, ninguém nunca faz. Mas você nota. Dentro de você que a mudança faz um mundo de diferença. E você espera que essa seja ela, esta seja a pessoa que você será para sempre.

E que você nunca tenha que mudar de novo.

— Ephram Brown, personagem de Gregory Smith na série Everwood, narrando sua dificuldade em mudar.
 

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